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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Série Povos da Amazônia: Introdução



   

  Para um bom entendimento do assunto, devemos voltar alguns séculos atrás e dar uma pequena e abrangente introdução sobre os primeiros contatos dos não-índios com a cultura indígena Amazônica; e situar o leitor das condições climáticas e como isso acarretou de forma negativa na conservação dos artefatos mais delicados que poderiam ser encontrados naquela região.
  Após a existência da América ter sido revelada para a Europa e o Brasil ser descoberto, as margens do Rio Amazonas foram pouco a pouco exploradas por navegantes mais ousados. Os primeiros a terem algum contado com as densas florestas amazônicas foram os castelhanos do Peru, mas não conseguiram tomar conta do território, isso só veio a acontecer quase meio século depois com a chegada de aventureiros ingleses e holandeses.
  Pelo Tratado de Tordesilhas, firmado entre portugueses e espanhóis, toda a parte norte pertencia a Espanha e por ela deveria ser explorada. Então um navegante espanhol, Vicente Ianez Pinzól, estimulado por riquezas desconhecidas, no começo do ano 1500 navegou pelo delta do Rio Amazonas, conhecendo assim, paisagens mais densas, animais exóticos e coloridos. Nessa mesma época alguns viajantes portugueses se deslocaram para o norte brasileiro, mas nenhum dos dois reinos tomou posse. Por ser uma região costeira tinham dúvidas se o tratado ali também valia.
  Os espanhóis que achavam aquela terra sua por direito, sentiam-se na obrigação de explorá-la, além do que, imaginavam que ali poderia conter muita riqueza. Então em 1541, Francisco Orellana, com quase 5.00 homens, fez uma expedição em busca de terra a leste do Império Inca. Aqui chegando, tiveram uma grande decepção, pois não encontraram as recompensas almejadas, o grosso do grupo resolveu voltar para o Peru, onde os castelhanos estavam estabelecidos e Orellana com alguns homens ficou para explorar o curso do rio.
  Após algum tempo os mantimentos acabaram e já não tinham como voltar. Desesperados por não encontrarem povoamentos próximos para reabastecer o bergantim, a única possibilidade que tinham era prosseguir. Até que em 1542 encontraram uma terra povoada, com índios que mesmo assustados deram guarita aos expedicionários famintos. Orellana vendo que os índios da região tinham boa vontade resolveu construir ali um assentamento, em nome do rei, tornando aquelas terras, até o momentos não exploradas, propriedade dos espanhóis.
  Logo após continuaram a descer o rio, enfrentando novamente a fome, até chegarem a um imenso povoado, de um grande senhor conhecido como Machiparo; lá enfrentaram inúmeros homens em condição de combate, mas após algum tempo de luta Orellana e seus homens venceram, tomando o porto para si. Nesse grande povoado encontraram caminhos largos pela terra adentro e resolveram seguir por eles. Mais para frente entraram nas terras de outro grande senhor e se espantaram com a beleza e o grau de perfeição das cerâmicas ali encontradas, todas muito coloridas e bem moldadas, melhores que todas que já tinham visto. Encontraram também ídolos, tecidos em palha. Espanto mesmo tiveram em um povoado mais adiante, encontrando esculturas esculpidas em alto relevo, vestimentas plumárias de várias cores que os índios utilizavam para celebrar suas festas, demonstrando assim o alto grau de desenvolvimento dos povos ali presentes.
  Continuaram os expedicionários descendo o rio até chegarem no território das Icamiabas, que eles chamavam de Amazonas; lá enfrentaram muitas dificuldades e foram hostilizados pelas guerreiras. Mesmo assim conseguiram prosseguir viajem até encontrarem terras povoadas por índios pacíficos. Por fim, algumas léguas após, Orellana encontrou o mar, indo aportar no Golfo de Pária, terminando assim sua jornada pelas terras amazônicas.
  Muito tempo se passou e essa imensa viajem de Orellana foi praticamente esquecida, pois os espanhóis estavam satisfeitos com suas terras e os portugueses ainda enfrentavam certa dificuldade em dominar a marinha potiguara e cearense. Foi então, após quase meio século, que aventureiros ingleses e holandeses resolveram dominar a região, em busca de produtos florestais como madeiras e o urucu, além de tudo que a floresta e os rios poderiam oferecer. Dispunham assim, os ingleses e batavos, dos elementos necessários para um grande empreendimento colonial, mão de obra escrava trazida da África e matéria prima o suficiente para ali permanecerem.
  Muitos fatos históricos ocorreram após isso, mas no momento ficaremos com essa breve introdução. Agora que conhecemos um pouco mais sobre a região e sua descoberta pelos não-índios, podemos dar completa atenção aos artefatos ali encontrados. A maior parte era de cerâmicas e louças, pois, ao contrário do Peru, o clima extremamente úmido e quente dessa região foi muito desfavorável para a preservação de objetos mais delicados feitos de madeiras, arte plumária, traçados e até mesmo alguns tecidos mais finos, restando apenas artefatos de louça e pedras, sendo que esses últimos eram difíceis de serem encontrados pela escassa matéria prima na região. 

Viajem de Orellana


quinta-feira, 31 de julho de 2014

Um pouco de arqueologia: As máscaras de dança



  Pelo clima favorável, os povos da região da hiléia amazônica vivam nus, essa falta de necessidade fez com que a indústria têxtil fosse pouco desenvolvida. Quando tinham necessidade de algum pano, faziam tramas de fibras, retiradas de certas árvores, tendo assim um produto final fresco e resistente. Esse tecido natural era muito utilizado, com ele preparavam cobertores, mosquiteiros e sacos, mas a maior serventia era pro preparo das máscaras de dança, sendo que na região do Rio Negro ainda hoje são indispensáveis em alguns rituais.
  A importância dessas máscaras vem do fato dos índios celebrarem por inúmeros motivos, seja a volta da guerra até o enterro de alguém, celebram para os caciques e para a puberdade das meninas. Vale lembrar que, raro era a participação das mulheres nessas danças e mais raro ainda eram as mulheres utilizarem essas máscaras.
  O objetivo principal é de ajudar o índio a se fantasiar, quase sempre de animais, mas o que conta mesmo é a interpretação, pois as mesmas máscaras podem ser utilizadas para vários animais, o que muda é a voz e as mímicas utilizadas.
  Alguns pesquisadores afirmam que há três grandes grupos de máscaras: as de rituais, as de guerra e as de espetáculo. Sendo que o primeiro grupo é subdividido em: culto, velório e justiça.
  Essas máscaras de tururi (nome dado para os panos feitos de tecidos naturais) são verdadeiros dominós, feitos em apenas uma peça, exceto as mangas, que cobrem completamente o corpo do índio. Não são feitos buracos para os olhos pois as fibras são porosas e não atrapalham a visão. Podem demorar até 15 dias para serem produzidas e são queimadas assim que o uso for feito.
  É válido lembrar que não é uma demonstração artística, pois não visam a beleza, mas sim uma forma de passar informações.

Fonte:

Povos da Amazônia - Jakline Costa

domingo, 27 de julho de 2014

Um pouco de Arqueologia: Cultura Marajoara

Você conhece a Ilha de Marajó? 

Ilha de Marajó

A ilha do Marajó é uma ilha brasileira do estado do Pará, localizada na foz do rio Amazonas no arquipélago do Marajó.

Com uma área de aproximadamente 40 100 km², é a maior ilha do Brasil e também a maior ilha flúvio-marítima do mundo. A cidade de Belém situa-se à sudeste do canal que separa a ilha do continente. A maior ilha fluvial é a Ilha do Bananal.

Destaca-se pelos montes artificiais, nomeados tesos, construídos ainda em seu passado pré-colombiano pelos índios locais. A ilha era chamada de Marinatambal pelos indígenas (confirmado por Sir Walter Raleigh no século XVI), já em tempos coloniais foi denominada como Ilha Grande de Joannes.


A Ilha de Marajó, além de ser um belíssimo ponto turístico, também é um importante sítio arqueológico; pois nela foram encontrados vestígios de uma cultura muito antiga e muito rica, a Cultura Marajoara. Nessa cultura, que ainda intriga os pesquisadores, há grande destaque para sua cerâmica.

Vejamos um pouco sobre a Cultura Marajoara.


Vaso Globular Marajoara - Museu Nacional UFRJ


Há cerca de 5.000 anos algo novo e importante aconteceu no baixo Amazonas: alguns grupos caçadores e coletores começaram a utilizar vasos feitos em cerâmica e, provavelmente, também a cultivar a terra, produzindo parte de seu alimento.

Ainda não sabemos se estes grupos desenvolveram, por si próprios, o conhecimento da cerâmica e do cultivo, ou se adquiriram este conhecimento a partir de seus vizinhos dos Andes e da América Central, que já tinham uma agricultura bastante desenvolvida.
   

Muitas mudanças ocorreram a partir daí. Em primeiro lugar, grupos ceramistas e cultivadores tendem a se tornar sedentários, ou seja, a ficar mais tempo em cada lugar, implantando aldeias permanentes e ocupadas por várias gerações.

Esses ingredientes, favorecendo o aumento da população e criando a necessidade de estabelecer regras de convivência para grupos de pessoas cada vez maiores, levou, na Amazônia, à emergência de sociedades bastante complexas.

Sem dúvida, a mais complexa de todas foi aquela que os arqueólogos denominam "Cultura Marajoara".

Tapa sexo - BBC Brasil

Na época em que a Cultura Marajoara atingiu seu mais alto grau de desenvolvimento não havia, em toda a Amazônia, qualquer ocupação humana que lhe fosse comparável.

Porêm, esta Cultura representa um enigma para os arqueólogos. Os cientistas ainda não sabem de onde este grupo veio e também desconhecem seu destino, pois o grupo desapareceu de repente, em conseqüência, talvez, de ataques de povos indígenas numerosos e belicosos vindos do continente.

De qualquer maneira, os Marajoaras não estavam mais na ilha quando o colonizador europeu chegou ao Brasil e, por isso, somente escavações nos poucos tesos intactos que ainda restam em Marajó poderão trazer luzes a estas inúmeras questões.

Texto na íntegra em: Arqueologia Brasileira


Urna Funerária - Museu Nacional UFRJ.


O Brasil não tem resquícios de cidades ou arquiteturas de civilizações ancestrais, mas guarda objetos de valor inestimável como a cerâmica da cultura marajoara – da Ilha de Marajó, no Pará – feitas pelos antigos povos indígenas da região. Agora, pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) encontraram objetos que representam urnas funerárias de populações que viveram há mais de dois mil anos em um sítio conhecido como Ilha de Terra, região da Floresta Nacional de Caxiuanã, no interior do Pará. A descoberta chama a atenção dos pesquisadores porque ajuda a entender como a cultura marajoara se difundiu na região amazônica.

Segundo a coordenadora do projeto de salvamento arqueológico do local, Alicia Duran Coirolo, o material encontrado é bastante semelhante ao dessa cultura, porque apresenta aparentemente as mesmas técnicas de decoração e as formas de algumas vasilhas. “É a primeira ocorrência desse tipo de decoração de características marajoaras achada fora do arquipélago de Marajó”, afirma a pesquisadora. “Isso indica a comunicação entre os diferentes povos e a forte migração existente na Amazônia.”

Os arqueólogos se surpreenderam novamente após analisarem o material da Ilha de Terra: eles verificaram que esses objetos são mais antigos que os de Marajó. As cerâmicas recém-encontradas foram fabricadas entre 1000 e 2150 anos atrás, enquanto as do arquipélago têm entre 500 e 1500 anos de idade. “A cultura marajoara pode ter se proliferado antes na região de Caxiuanã para depois alcançar a Ilha de Marajó”, sugere Coirolo.





PARA SABER MAIS SOBRE A CULTURA MARAJOARA

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Um pouco de Arqueologia: Os Geoglifos

Desde que foram descobertos, os geoglifos no Acre são motivo de vários questionamentos, tanto entre a população local quanto entre os pesquisadores.

Quem os teria feito e por quê?

Em um artigo¹ publicado pela UFPB são levantadas algumas questões importantes sobre esse achado arqueológico. O resumo do artigo é o seguinte:

Diferenças ecológicas entre os ambientes de várzea e terra firme (terra para agricultura, acesso aos recursos ribeirinhos e navegação) têm apoiado interpretações dos povos de terra firme como horticultores de coivara semi-sedentários, que nunca desenvolveram complexas instituições sociais ou cultura material elaborada. Esse artigo desafia essa posição, ao reportar a existência de centenas de estruturas de terra perfeitamente geométricas erigidas por populações pré-colombianas nos solos argilosos da Amazônia ocidental, no Estado do Acre e adjacências. Os geoglifos, como estão sendo chamados, indicam uma população expressiva, organizada regionalmente, vivendo por centenas de anos em um habitat que foi uma vez considerado como inadequado para sustentar complexidade social. Levantando algumas hipóteses sobre os construtores de geoglifos, os autores argumentam por uma revisão do modelo ecológico à luz das novas evidências.

O artigo ainda apresenta um resumo sobre a história da arqueologia no Acre, entre outras informações relevantes, e apresenta um histórico da descoberta dos geoglifos.


Geoglifos: pesquisas recentes

As estruturas de terra descobertas por Dias permaneceram desconhecidas dos arqueólogos brasileiros e do público até 1999, quando o Prof. Dr. Alceu Ranzi,um paleontólogo da Universidade Federal do Acre, que havia participado ainda como estudante das pesquisas do PRONAPABA, as viu da janela de um avião comercial, quando viajava de Porto Velho para Rio Branco. A partir de então, passou a buscar informações sobre tais estruturas, primeiramente com pilotos de aeronaves e depois com fazendeiros, proprietários das terras onde as estruturas se localizavam. Como um estudioso da paleoecologia da Amazônia, Ranzi estava interessado nas implicações daquele achado para nosso entendimento sobre as dinâmicas de expansão e retratação das florestas. Por sua dimensão e perfeita geometria, as estruturas deveriam ter sido feitas quando a região estava ocupada por savanas. Portanto, a floresta intocada do imaginário popular e científico deveria ser bem mais recente do que se supunha.

[...]

As poucas datações existentes, realizadas pelos arqueólogos do IAB, colocam os sítios entre 500 a.C. e 1000 d.C.Uma data de 1260 d.C foi obtida datando-se o carvão retirado de uma mureta cortada pela estrada de uma fazenda (Pärssinen et al.,2003).

Apesar da grande disparidade de datas, estima-se que a maior parte das estruturas date entre 800 e 1300, pois este é o período em que em outras partes da Amazônia começam a surgir sociedades demograficamente densas, aparecendo trabalhos coletivos bem organizados (ver Neves, 2003; Roosevelt, 1999; Schaan, 2004). Estes sítios lembram também as obras de terra encontradas nas terras baixas da vizinha Bolívia, onde extensos canais e áreas elevadas têm sido interpretados como campos agrícolas (Erickson, 1980).

É interessante observar que os geoglifos foram feitos em uma época em que não havia floresta na região, ou seja, se a data de 1260 d.C estiver correta, significa que a floresta Amazônica não existia nessa região até, no mínimo, essa data; sendo uma vegetação muito recente à chegada dos colonizadores europeus. Isso faz a mente viajar.

O artigo referido é muito interessante, ele pode ser lido na íntegra seguindo esse link: Periódicos UFPB

Abaixo um vídeo bem esclarecedor sobre os geoglifos.

"Das quatro universidades que estudam os geoglifos, três são de fora. Uma dos Estados Unidos, outra da Inglaterra e uma terceira da Finlândia".


"Nós brasileiros não estamos tão, entre aspas, interessados assim em saber como os nossos povos indígenas viviam aqui no passado. Então é um pouco frustrante, porque a gente não dá valor para o que é nosso".




Geoglifo - Acre

¹Autores do Artigo:
Denise Schaan; Martti Pärssinen;Alceu Ranzi; Jacó César Piccoli