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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A Flauta Uruá



A flauta Uruá é um dos instrumentos musicais considerados sagrados pelos povos indígenas e é mais conhecida por sua utilização na festa do Kwarup, no Xingu. Mas essa tradição já esteve ameaçada pela falta de matéria prima, o bambu que era usado em sua confecção.

Segue um trecho retirado do artigo da Embrapa, O bambu do Uruá, por Fábio de Oliveira Freitas, Sandra Beatriz Cerqueira Zarur, Dijalma Barbosa da Silva e José Nelson Lemos Fonseca. Esse artigo conta um pouco da história de como foi possível preservar essa tradição.

Características do bambu, do instrumento e seu uso.

Os instrumentos musicais utilizados pelos indígenas eram geralmente feitos de ossos, de cabaças, bambus, cascas de árvores e taquaras e decorados com penas e outros enfeites coloridos; muitos considerados sagrados. Os instrumentos mais conhecidos são o maracá, a flauta uruá, a trombeta de cuia e o trocano.

A flauta Uruá é tocada em dois eventos no Xingu: na festa do Kwarup, que de forma muito simplificada é a última homenagem ao morto, quando dois índios, acompanhados por duas virgens, passam pelas ocas tocando essas flautas gigantes; e durante a furação de orelha, que é um rito de passagem dos jovens.

As principais características da importância desse bambu para a confecção da flauta são: colmo bem reto, com pouca variação de diâmetro; parede de colmo resistente, mas fina e entrenó macio, permitindo que o mesmo seja furado com facilidade, para a passagem do fluxo de ar, ao longo da tubulação da flauta.

O nome indígena deste bambu é Taakuát, em tupi-guarani, ou Ianati, na língua Yawalapiti, sendo que a flauta recebe o nome de Uruá na língua Kamaiurá ou Wëpë, em Yawalapiti. Segundo o seu relato, este bambu era conseguido por meio de trocas com os Mehinaku e Juruna, sendo a primeira etnia localizada na parte mais ao sul do Parque, enquanto os outros ficavam no extremo norte. O bambu acabou em ambas.

Cada gomo do colmo possui ao redor de 40 a 50 cm de comprimento, sendo que a flauta fina, que é dupla, fica com mais de dois metros, a partir do encaixe de pedaços contendo dois gomos cada. Ela não possui “furos” para mudanças de nota musical, mas apenas um defletor bucal, que serve tanto par afinar o instrumento como para variar o som através de mudança da embocadura. A variação dos tons é também conseguida pela diferença de sons emitidos por cada um dos dois tubos, de tamanhos diferentes e, portanto, emitindo notas distintas.

Segundo relato dos mesmos índios, este bambu também é a matéria prima para a confecção de uma outra flauta, a chamada de Takuara, originalmente feita pelos Bakairi, antigos moradores do Parque, que migraram para outras regiões há tempos e hoje se encontram muito descaracterizados.

Os índios do Xingu aprenderam com os Bakairi diversas músicas, tocadas em cinco flautas de tubos simples, menores, de diferentes tamanhos, utilizadas na festa da Takuara. Hoje, só o pessoal do Xingu mantém a tradição das músicas aprendidas no passado com os Bakairi que, infelizmente, devido aos 500 anos de contato, já não conhecem seus cantos e festas tradicionais.

A importância cultural da flauta do Bambu.

Festas e rituais são conduzidos ao som de músicas projetadas por estes instrumentos. O jeito artesanal de confeccionar, afinar e tocar a flauta estava se perdendo, pela falta da matéria prima. Ao reencontrarem a matéria prima, tiveram a chance não apenas de produzir novos instrumentos, mas de perpetuar a sua cultura para a nova geração.



quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Jogos Mundiais Indígenas 2015


Em 2015 acontece um evento muito importante, são os Jogos Mundiais Indígenas, que reunirá em Palmas, no Tocantins, povos do mundo inteiro. 

A cidade de Palmas foi escolhida pelo Ministério do Esporte e pelo Comitê Intertribal Memória e Ciência Indígena (ITC) como sede da primeira edição mundial dos Jogos dos Povos Indígenas. Com a expectativa de participação de 22 a 30 países, o evento está previsto para o segundo semestre de 2015.

[...]

Primeira edição
A primeira edição dos Jogos Mundiais Indígenas foi aprovada no ano passado, durante a realização dos  Jogos dos Povos Indígenas, em Cuiabá. No evento, líderes estrangeiros de 17 países - incluindo o Brasil - e índios de 48 etnias nacionais reuniram-se com o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, e com o coordenador-geral de políticas esportivas indígenas, Rivelino Macuxi,  para discutir a primeira versão do mundial.
 

Conheça mais o projeto no vídeo:






sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A Lenda da erva-mate



   Diz a lenda que toda tribo tinha partido para a guerra. Mas um homem, por causa de sua idade avançada, teve que ficar. E ele ficou chorando no alto de uma colina, vendo os jovens guerreiros partirem. Ele se lembrava de quando ele era um valente guerreiro e como, agora, estava fraco e envelhecido. Sua única alegria era sua filha Iari. Ela já tinha recusado muitos pedidos de casamento para ficar ao lado do velho pai. Um dia, chegou ao rancho do velho guarani um viajante estranho: com roupas coloridas e olhos lembrando o azul do céu longínquo. O velho logo percebeu que o homem vinha de muito longe e recebeu o viajante com amizade. Iari foi buscar os melhores frutos da floresta e o mel mais doce das abelhas. O velho índio, com os olhos cerrados para melhor lembrar histórias de um mundo afastado no tempo, recordava episódios de sua mocidade. Tudo era feito para que as horas que o estrangeiro passasse naquele rancho fossem agradáveis. No outro dia, com o sol raiando, o viajante já estava pronto para partir. Dirigiu-se então ao velho índio e disse: – Você é uma pessoa muito boa. E a sua bondade merece ser recompensada. Eu sou um mensageiro de Tupã, espírito do bem. Pede o que quiser e eu lhe darei. – Nada mereço pelo que fiz, senhor! – respondeu o guarani. Mas gostaria de um companheiro para a minha velhice, para que minha filha Iari pudesse casar e formar sua própria família. É só o que eu peço: um amigo fiel que fique comigo e me dê ânimo. O mensageiro de Tupã sorriu. Em suas mãos brilhava uma planta repleta de folhagens verdes. O viajante entregou a planta ao velho e disse: – Deixa crescer esta planta e bebe de suas folhas que você vai ter o companheiro que tanto deseja. Esta erva traz em si a força de Tupã e trará conforto para todos os homens de tua tribo. E Iari será a protetora das florestas. As caminhadas de guerra serão menos cansativas e os dias de descanso mais felizes. E desde então, Caá-Iari é senhora das ervas e deusa dos ervateiros. 

  Poema que fiz inspirado na lenda:



  Fonte de informações:

Lendas Brasileiras

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Kaxinawá ou Huni Kuin



  São pertencentes a família linguística Pano, que abrange do Peru até o sul do Amazonas, sendo que as aldeias brasileiras estão no estado do Acre e se espalham por diversos rios da região, esses dois grupos foram divididos após uma rebelião com os seringalistas, sendo que uma parte subiu para a cabeceira do rio Purus no Peru enquanto a outra permaneceu aqui. Ainda hoje eles mantes os lanços culturais a partir dos casamentos entre as tribos, mas são visíveis as diferenças que essa mudança de localização causou nesses dois grupos. Todos os subgrupos nawá são pertencentes a essa família por terem tanto a língua como a cultura muito próximas uma da outra. Cada um desses subgrupos se auto denominam huni kuin (homens verdadeiros), talvez por ainda manterem vivas a tradição e cultura de seu povo, algo que os distingue dos outros homens são as transições de nomes que sofrem.
  Os primeiros contatos com os não-índios se deu quando os seringalistas fizeram excursões pela região em busca de escravos, mas pouco se sabe dessas excursões pela falta de informações que foram escritas ou armazenadas. A chegada desses seringueiros, infelizmente, não foi algo passageiro, pois para se ter a borracha as árvores precisam ser mantidas e preservadas, o que fez com que permanecessem no local, independente dos autos e baixos do mercado vigente. Algo muito chocante mas corriqueiro na época foi a violência sofrida pelos indígenas, que além das doenças trazidas pelos homens brancos foram obrigados a se deslocarem de seu local de origem em violentos confrontos com os mateiros (homens responsáveis por abrir as estradas para as seringas), que além de seu serviço habitual deveriam limpar a área dos índios arredios. Com o tempo e a pressão dos seringalistas os índios foram se aquietando, os que não eram a favor mudavam de região, sendo que até pouco tempo atrás existiam tribos no Peru que evitavam qualquer tipo de contato com os não-índio.
  Na parte espiritual eles acreditam que os verdadeiros xamãs, conhecidos como mukaya que continham em si o muka, morreram a muito tempo, mas isso não os impedem de realizar seus rituais e cerimônias que se tornaram menos poderosas mas aparentemente do mesmo modo eficientes, talvez pelo fato de que os mukaya tinham apenas o privilégio da retirada do muka, enquanto o conhecimento da comunicação com os yuxin (mundo espiritual) é restrita dos mais velhos. Esse fato deixa ambíguo o fato da existência ou não dos xamãs, pois muitos detém o conhecimento da tribo. Alguns acreditam que essa frase pode ser interpretada pelo modo de que muitas regras de abstinência eram afligidas aos mukaya, regras essas que não tem poder sobre os mais velhos da tribo. Algo de suma importância é o contato feito com o yuxin, pois os Kaxinawá acreditam que as doenças e coisas ruins estão nesse plano, sendo que apenas o mediador que contém os conhecimentos pode apaziguar esses males. A iniciação no xamanismo pode ser fita tanta de livre e espontânea vontade, quando o interessado busca aprender, quanto pela escolha dos yuxin que conseguem enxergar o muka existente no coração do escolhido. Vale ressaltar que qualquer um pode tentar ser um xamã mas nenhum conhecimento pode criar o muka e apenas quem tiver essa substância poderá de fato extrair os poderes necessários para os rituais.
  Os mitos de criação desse povo estão sempre ligados a algum animal que os ensinou. O animal é o “huni kuin encantado” e o yuxin pertencente nele ensinou aos homens tudo que eles deveriam saber. Alguns exemplos são: o esquilo que ensinou a arte de plantar (pela sua figura de estocagem de comida, algo que é necessário para aprender o plantio), o macaco que pelos seus hábitos ensinou como se deve copular, a rata que ensinou como são feitos os partos, a aranha com o dom da tecelagem e muitos outros animais.
  A organização social deles é fortemente fundada na divisão dos sexos, sendo que as atividades sempre são feitas com as mulheres de um lado e os homens do outro, o que é muito importante nos rituais. As crianças são ensinadas desde cedo as atividades do cotidiano e com o passar dos anos a dificuldade dessas atividades vão aumentando. Logo quando nasce a criança recebe o seu nome e tem o período da infância para se adaptar aos poucos com ele, os termos de parentesco também são ensinados nessa mesma época e depois que eles são gravados e dominados os nomes próprios vão sendo substituídos por esses termos de parentesco.
  Existem vários tipos de rituais praticados por eles, sendo que alguns são:
  •         Txidin: Caracteriza-se pelos cantos da criação do mundo, pela dança do líder e pelo acompanhante. É feito com vários elementos e cada um deles tem a sua característica e importância bem estabelecidas, sendo que de um lado ficam os filhos da onça e do outro os filhos do brilho, complementando um ao outro no mito da criação;

  •          Katxanawá: É o ritual da fertilidade e normalmente é feito várias vezes ao ano. Basicamente é a representação em dança dos yuxin da floresta em torno de um tronco que foi cortado, descascado e esvaziado dentro da floresta pelos homens que fazem o papel de invasores;

  •          Festa do fogo novo: Consistia na mudança do fogo velho para o fogo novo de forma ritualística, com caçadas que davam alimento para vários dias de festa. Hoje em dia esse ritual perdeu seu significado pois o fogo novo pode ser e é feito todos os dias;

  •          Casamento: O interesse nas meninas da tribo pelos homens se torna legítimo após a primeira menstruação, uma série de fatores pode influenciar na escolha do pretendente, como ser um primo próximo da mesma aldeia no caso do primeiro casamento. Antes do casamento ser consumado a mãe consulta a filha sobre o pretendente, que consultou a mãe que por sua vez vai consultar o marido. O casamento é consumado a partir do momento que o pretendente começa a dormir na casa do sogro, caso ele já tenha uma esposa, deve-se construir uma habitação próxima da casa da pretendente onde eles irão morar juntos. O casamento em si não é considerado importante o suficiente para se fazer uma festa e o máximo que ocorre é o ritual descrito.

  •          Outros rituais praticados: Nixpupima e Dau.

    A arte é algo muito importante para eles, as pinturas corporais podem ser feitas em ocasião das festas ou pelo simples fato de gostarem de se arrumar. As crianças não recebem desenhos apenas são enegrecidas com a pasta do jenipapo dos pés à cabeça enquanto os adultos tem o rosto todo pintado. A pintura com o jenipapo é considerado algo feminino, nas festas muitas delas podem ficar sem os desenhos mas no cotidiano quando o marido trás o jenipapo da floresta, logo se animam em fazer a pasta e pedir para alguém as pintar. Os mesmos formatos das pinturas de rostos podem ser encontrados nos corpos, cerâmicas, tecelagens e outros diversos meios de representação artística.
  A maioria das atividades de produção são feitas pelas mulheres, desde o mingau até a preparação dos alimentos arranjados nas caçadas. Os trabalhos cotidianos, como lavar roupa, o trato da cozinha, da cerâmica, do algodão, da fabricação de alguns tipos de cestos para o uso doméstico e do roçado também são atividades femininas, exceto o plantio do amendoim que é feito por homens e mulheres. Enquanto que a principal atividade feita pelo home é a da caça, os meninos a partir dos oito anos de idade já podem acompanhar os pais nesses eventos. Outras atividades feitas pelos homens é o preparo da terra para o plantio, a pesca e a coleta de frutas silvestres (algo que também pode ser feito pelas mulheres).

Mantendo a cultura

  Uma iniciativa muito bacana para a preservação da cultura dos Huni Kui é o livro Uma Isi Kayawa – O livro da Cura, que foi idealizado pelo pajé Agostinho Manduca. Seu sonho era que todo o conhecimento das ervas medicinais que possuía não fosse perdido quando morresse, infelizmente quando o livro foi lançado o pajé já tinha falecido e não pode contemplar a sua obra idealizada. O livro foi lançado no rio de janeiro, cerca de três dias atrás e a mostra de inauguração ainda está em aberto. Logo abaixo colocarei uma imagem do livro e um vídeo explicando melhor a ideia do seu conteúdo.


  Vídeo sobre o livro:

 
  Mais: imagens:





   Vídeos sobre a tribo:

 

  Fonte de conhecimento:


domingo, 17 de agosto de 2014

O que é cultura?




Apresentamos aqui um pequeno texto com uma definição alternativa para o termo "cultura". A intenção do texto é convidar o leitor a pensar um pouco sobre o que esse termo significa na prática.






O que chamamos de "cultura" nada mais é que a Natureza se expressando através do ser humano. 

Cada região do planeta tem uma energia própria, que se manifesta através de seu solo, de sua flora e de sua fauna.  Todos esses elementos influenciam e são influenciados pelo que chamamos de “clima” da região; e nós, seres humanos, expressamos tudo isso através da “cultura”, pois a Natureza nos influencia em nossas construções, em nossa forma de cobrir o nosso corpo, na forma como nos expressamos através da fala; enfim, a energia de cada região do planeta se expressa através da Natureza, e é isso o que nossa cultura expressa.  Assim, uma cultura está diretamente relacionada à região em que ela surge. 

Quando culturas diferentes se encontram, geralmente ocorrem resultados positivos e também negativos.  Mas os resultados negativos só ocorrem porque muitas vezes uma cultura estrangeira tenta se impor sobre uma cultura local; desrespeitando tudo que a Natureza levou muito tempo para desenvolver.  Isso gera em nós um sentimento de angústia, vazio, perda e depressão, pois perdemos nossa IDENTIDADE CULTURAL. 

Quando essa identidade cultural é perdida, o ser humano deixa de entrar em contato com sua essência, cuja fonte é a energia da terra onde vive. 

Então tentamos pegar emprestados padrões culturais de outros povos, mas isso não resolve a questão. Devemos aprender a permitir que nossa terra se expresse através de nós, assim como faziam nossos ancestrais, pois é a única forma de encontrarmos equilíbrio e força para seguirmos saudáveis rumo a um futuro melhor.

“Somente aquilo que somos realmente tem o poder de nos curar”
(Carl G. Jung)


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Flauta Jakui


 A flauta Jakui (ou Jacui) é um instrumento considerado sagrado por tribos como os Mehinakos e os Kamaiurás, no Xingu. Essas flautas ficam guardadas em um tipo de construção chamada de "Casa dos Homens", e as mulheres não podem sequer vê-las.


O terceiro tipo de construcão fica no centro da Aldeia e é conhecida como a casa dos homens, Kwaukuhe. A sua construção é uma solenidade, que exclui homens de outras tribos e as mulheres.

Nela é guardada a flauta do Jacuí, símbolo de poder e proibida aos olhos das mulheres. Se alguma delas olhar a flauta será obrigada a ter relação sexual com todos os homens da Aldeia, com exceção dos parentes de sangue.

Os Mehinaku contam que um dia, a flauta do Jacuí pertenceu às mulheres. Numa revolta os homens a retomaram . Por esse motivo, o trabalho pesado fica por conta delas.
(TV CULTURA)

 Há um mito para explicar o fato de as mulheres não poderem usar, e nem ver, a Flauta Jakui. Segue uma versão retirada do livro Sexo e desigualdade entre os Kamaiurá e os Cinta Larga, de Carmem Junqueira.

 
Muito antigamente
Se a mitologia incorpora alguma coisa da história vivida, por pouco que seja, então as mulheres Kamaiurá tiveram em algum ponto do passado momentos de glória.

As flautas Jakui eram antigamente das mulheres. Bonitas, enfeitadas, elas se reuniam no pátio da aldeia para tocar e lá ficavam horas a fio rendendo homenagem ao mamãe da Jakui e também se deliciando com os lindos sons que tiravam. Tocavam e dançavam alegrando todo mundo, menos aos homens, que morriam de ciúme e inveja. A cada sessão de flautas, mais inconformados ficavam de não ter acesso às Jakui. Decidiram então tirá-las das mulheres. Um dia, de surpresa, começaram a gritar muito alto para assustá-las. Mas não funcionou e elas sem qualquer sombra de medo prosseguiam na execução esmerada das músicas. Quase desanimados com a coragem feminina, eles planejaram um ataque que não poderia falhar. Com a ajuda de Kwat (o Sol) fizeram um grande zunidor e começaram a se aproximar do pátio. O amedrontador zunido foi num crescendo, as mulheres resistiram como puderam, mas, a certa altura, apavoradas, correram para casa deixando as flautas para trás. Felizes, os homens passaram a ser donos das invejáveis flautas sagradas e desde então só eles podem tocá-las. Vencidas, as mulheres tiveram de se conformar, relembrando com nostalgia que um dia tinham sido as donas. Foram ainda proibidas de ver e tocar as flautas, sob pena de castigo severo. Dizem que há muito tempo, na aldeia Waurá, uma mulher viu a flauta. Todos os homens tiveram relações sexuais com ela, que finalmente foi abandonada pelo marido! Outras versões do castigo são mais extremas: a mulher morreu porque “dificilmente resistiria a tantas relações num mesmo dia!”. Por precaução, elas agora fecham as duas portas da casa assim que ouvem os primeiros sons e, passivas, permanecem confinadas por muitas horas até que os homens decidam que já é tempo de parar (JUNQUEIRA, 2002. p. 41-42).



Homem Kamaiurá




REFERÊNCIA

JUNQUEIRA, Carmem. Sexo e desigualdade entre os Kamaiurá e os Cinta Larga. São Paulo: Olho d´Água, 2002.