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domingo, 24 de agosto de 2014

Série Povos da Amazônia: Civilização Marajoara

  A arqueologia amazônica começou a ser valorizada após o estudo das cerâmicas marajoaras. Os vasilhames encontrados anteriormente eram tão simples e grosseiros que denunciavam o nível das populações que povoavam a região.
  A beleza e a graça encontradas nas cerâmicas marajoaras eram comparadas aos artefatos dos povos da América Central e dos Andes, que chegaram ao mais alto nível de civilização. A olearia desse povo era muito requintada, faziam ídolos, potes, tigelas, maracás, tangas e outros objetos com muita elegância e cuidado com os contornos geométricos.  Todas as cerâmicas eram decoradas com desenhos e formas diferentes, não se repetindo nas demais peças, tentavam sempre preencher todos os espaços vazios.  Isso demonstrava que existia um grande sentimento estético entre eles. As decorações em estilo geométrico são heranças do uso constante dos traçados, sendo que as representações naturalistas são menos frequentes.
  As peças que mais chamam atenção são as tangas triangulares, pelo seu acabamento magnífico. Por muito tempo seu uso era desconhecido, até que encontraram um ídolo com essa tanga na região pubiana, então todos perceberam o cuidado e a delicadeza das marajoaras. O mais interessante é que essas tangas não foram encontradas em nenhum outro local, sendo assim, são ornamentos unicamente marajoaras. O capricho também era algo muito evidente, pois de todas as peças encontradas, nenhuma repetia as formas geométricas desenhadas.
  Os marajoaras tinham total noção da beleza de suas cerâmicas, pois protegiam suas urnas funerárias ricamente decoradas colocando-as dentro de outra urna maior e preenchendo o espaço vazio com argila arenosa e pertences do falecido.
  Uma civilização complexa, muito mais desenvolvida culturalmente que as demais da região, podendo ser ligada a vários outros povos, como os da América Central, os povos do Alto Amazonas e certamente das Antilhas, esclarecendo assim um pouco das suas origens e conhecimentos.




segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Série Povos da Amazônia: Cerâmica





  A arte em cerâmica demonstra um nível de desenvolvimento estrutural e cultural mais elevado dos povos indígenas que a utilizava, pois para carregar alimentos e água, cestos simples de vime impermeabilizados com cera já atenderiam bem o objetivo. De acordo com Karl von den Steinen, um antropólogo alemão, as primeiras cerâmicas foram obtidas por esse processo de impermeabilização, quando um índio pode ter esquecido um vaso com revestimento de barro próximo ao fogo e por esse acidente ter descoberto a cerâmica. Alguns historiadores não concordam com isso, pois a simples observação da natureza poderia ter levado o ameríndio a essa conclusão. Seja qual for a forma pela qual tomaram conhecimento, após a descoberta de que a argila poderia ser moldada e se tornava mais resistente por isso, os índios não dispensaram mais a utilização dessa técnica.
  Após feito e cozido, o vaso ainda era muito simples e precisava de decoração; assim vieram as pinturas ornamentadas, que eram feitas pelas índias, como todo o trabalho de confecção das cerâmicas, onde alguns povos ganharam destaque, entre eles os Marajó, que eram considerados mestres na confecção de maravilhosas louças.
  Mesmo depois de conhecida essa arte, muitas tribos continuaram usando o cesto de vime com revestimento de barro, algumas dessas tribos não tinham um alto grau de desenvolvimento e não conseguiam assimilar a técnica; e se utilizavam esses materiais era por que os obtinham em trocas. Alguns exemplos de tribos nossas que desconheciam ou ignoravam o uso da cerâmica eram os Caiapós, os Botocudos e os Craós. Ao contrário dos Aruaques, que foram os grandes oleiros de Marajó, cujos trabalhos eram encontrados em várias tribos, estimulando também os outros índios a produzirem sua cerâmica com maestria.
  A arte da cerâmica exige muita paciência de quem a pratica, tudo deve ser muito bem feito, a começar pela escolha do barro até as substâncias que a ele são misturadas, como cascas de árvore, carapaças de tartaruga e ossos; todos calcinados, podem ser utilizados também areia, conchas e até pó de pedra. Mas muitos consideram que o grande passo foi tomado quando tribos do baixo amazonas adicionaram o resíduo do Cauxi ao barro, tornando a cerâmica muito mais resistente e aumentando a sua durabilidade.
  A pintura normalmente era feita antes do cozimento, utilizavam tintas vegetais ou minerais. Temos como exemplo o vermelho obtido do urucu, para o vegetal; e as argilas de várias cores para os minerais. Além dessa pintura, os povos da Amazônia costumavam vidrar a louça, utilizando algum tipo de verniz, como a Jutaicica, por exemplo, isso dava um fino acabamento para a louça.
  Um processo bastante curioso de decoração utilizado e encontrado tipicamente em Marajó, consistia em uma fina camada de argila que era colocada no vaso; lá se moldava e era retirado o excesso até chegar novamente na parede original, criando assim, desenhos em alto relevo. Uma decoração mais modesta, mas muito utilizada, era feita com a ponta dos dedos, causando ondulações na peça.
  Além de todas as funções citadas, a cerâmica também era utilizada para a fabricação de urnas funerárias.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Série Povos da Amazônia: Introdução



   

  Para um bom entendimento do assunto, devemos voltar alguns séculos atrás e dar uma pequena e abrangente introdução sobre os primeiros contatos dos não-índios com a cultura indígena Amazônica; e situar o leitor das condições climáticas e como isso acarretou de forma negativa na conservação dos artefatos mais delicados que poderiam ser encontrados naquela região.
  Após a existência da América ter sido revelada para a Europa e o Brasil ser descoberto, as margens do Rio Amazonas foram pouco a pouco exploradas por navegantes mais ousados. Os primeiros a terem algum contado com as densas florestas amazônicas foram os castelhanos do Peru, mas não conseguiram tomar conta do território, isso só veio a acontecer quase meio século depois com a chegada de aventureiros ingleses e holandeses.
  Pelo Tratado de Tordesilhas, firmado entre portugueses e espanhóis, toda a parte norte pertencia a Espanha e por ela deveria ser explorada. Então um navegante espanhol, Vicente Ianez Pinzól, estimulado por riquezas desconhecidas, no começo do ano 1500 navegou pelo delta do Rio Amazonas, conhecendo assim, paisagens mais densas, animais exóticos e coloridos. Nessa mesma época alguns viajantes portugueses se deslocaram para o norte brasileiro, mas nenhum dos dois reinos tomou posse. Por ser uma região costeira tinham dúvidas se o tratado ali também valia.
  Os espanhóis que achavam aquela terra sua por direito, sentiam-se na obrigação de explorá-la, além do que, imaginavam que ali poderia conter muita riqueza. Então em 1541, Francisco Orellana, com quase 5.00 homens, fez uma expedição em busca de terra a leste do Império Inca. Aqui chegando, tiveram uma grande decepção, pois não encontraram as recompensas almejadas, o grosso do grupo resolveu voltar para o Peru, onde os castelhanos estavam estabelecidos e Orellana com alguns homens ficou para explorar o curso do rio.
  Após algum tempo os mantimentos acabaram e já não tinham como voltar. Desesperados por não encontrarem povoamentos próximos para reabastecer o bergantim, a única possibilidade que tinham era prosseguir. Até que em 1542 encontraram uma terra povoada, com índios que mesmo assustados deram guarita aos expedicionários famintos. Orellana vendo que os índios da região tinham boa vontade resolveu construir ali um assentamento, em nome do rei, tornando aquelas terras, até o momentos não exploradas, propriedade dos espanhóis.
  Logo após continuaram a descer o rio, enfrentando novamente a fome, até chegarem a um imenso povoado, de um grande senhor conhecido como Machiparo; lá enfrentaram inúmeros homens em condição de combate, mas após algum tempo de luta Orellana e seus homens venceram, tomando o porto para si. Nesse grande povoado encontraram caminhos largos pela terra adentro e resolveram seguir por eles. Mais para frente entraram nas terras de outro grande senhor e se espantaram com a beleza e o grau de perfeição das cerâmicas ali encontradas, todas muito coloridas e bem moldadas, melhores que todas que já tinham visto. Encontraram também ídolos, tecidos em palha. Espanto mesmo tiveram em um povoado mais adiante, encontrando esculturas esculpidas em alto relevo, vestimentas plumárias de várias cores que os índios utilizavam para celebrar suas festas, demonstrando assim o alto grau de desenvolvimento dos povos ali presentes.
  Continuaram os expedicionários descendo o rio até chegarem no território das Icamiabas, que eles chamavam de Amazonas; lá enfrentaram muitas dificuldades e foram hostilizados pelas guerreiras. Mesmo assim conseguiram prosseguir viajem até encontrarem terras povoadas por índios pacíficos. Por fim, algumas léguas após, Orellana encontrou o mar, indo aportar no Golfo de Pária, terminando assim sua jornada pelas terras amazônicas.
  Muito tempo se passou e essa imensa viajem de Orellana foi praticamente esquecida, pois os espanhóis estavam satisfeitos com suas terras e os portugueses ainda enfrentavam certa dificuldade em dominar a marinha potiguara e cearense. Foi então, após quase meio século, que aventureiros ingleses e holandeses resolveram dominar a região, em busca de produtos florestais como madeiras e o urucu, além de tudo que a floresta e os rios poderiam oferecer. Dispunham assim, os ingleses e batavos, dos elementos necessários para um grande empreendimento colonial, mão de obra escrava trazida da África e matéria prima o suficiente para ali permanecerem.
  Muitos fatos históricos ocorreram após isso, mas no momento ficaremos com essa breve introdução. Agora que conhecemos um pouco mais sobre a região e sua descoberta pelos não-índios, podemos dar completa atenção aos artefatos ali encontrados. A maior parte era de cerâmicas e louças, pois, ao contrário do Peru, o clima extremamente úmido e quente dessa região foi muito desfavorável para a preservação de objetos mais delicados feitos de madeiras, arte plumária, traçados e até mesmo alguns tecidos mais finos, restando apenas artefatos de louça e pedras, sendo que esses últimos eram difíceis de serem encontrados pela escassa matéria prima na região. 

Viajem de Orellana